Tem filme de corrupção que a gente já assiste sabendo como termina. Não pelo enredo, esse muda: ora é banqueiro, ora é ministro, ora é doleiro. O que não muda é o final. Alguém grande cai, o país se emociona por um instante, e três, cinco, dez anos depois o mesmo alguém está de volta, absolvido, reeleito ou simplesmente esquecido, como se o filme tivesse sido de outra pessoa.
Esta semana o enredo é a crise entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal. André Mendonça afastou preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, sob acusação de monitoramento ilegal contra a própria magistratura. A Segunda Turma formou maioria para manter a decisão. Treze ex-ministros do STF, entre eles nomes como Celso de Mello e Rosa Weber, mandaram carta ao presidente da Corte pedindo apuração pública e urgente. Isso não é fofoca de bastidor: é o próprio tribunal admitindo, pela boca de quem já o presidiu, que a coisa é grave.
E aqui já vale um parênteses de honestidade: não sabemos, hoje, se este episódio termina em algo estrutural ou se esfria como sempre esfria. Quem afirma o desfecho está apostando, não relatando. Mas dá para observar um padrão, e é sobre esse padrão que A Tribuna Regional quer falar — não sobre quem tem razão entre Moraes e Mendonça.
Porque o padrão já é velho conhecido do noticiário brasileiro. No mensalão, gente que parecia intocável foi condenada e presa — mas saiu da cadeia bem antes do que a sentença fazia parecer, por progressão de regime e por outros processos que não avançaram. No petrolão e na Lava Jato, prisões e devoluções bilionárias vieram seguidas, anos depois, de anulações em cascata: primeiro por incompetência de foro, depois pelo caso midiático da Lava-Toga, que tirou a legitimidade do próprio juiz que conduzia o caso, mesmo não tirando sua razão ao condenar. O processo mais emblemático da década — o de Lula — foi desfeito não porque os fatos deixaram de existir, mas porque o rito que os apurou foi declarado viciado. Na eleição seguinte, o mesmo homem venceu.
Não é A Tribuna quem vai arbitrar, numa página de opinião, se aquelas anulações foram justiça corrigindo um erro ou elite se protegendo — essa é uma discussão legítima, e das duas leituras existe argumento sério. O que fica registrado aqui é mais simples e mais incômodo: seja qual for o motivo jurídico — incompetência, suspeição, prescrição, vício de forma —, o resultado prático de quase todo grande processo brasileiro contra gente de poder é o mesmo. Ele não chega ao fim que a lei prometeu no início. Ele se dissolve no meio do caminho, por uma porta processual que o cidadão comum nunca vai ter a sorte de encontrar.
É por isso que a crise desta semana, por mais grave que pareça, já nasce sob suspeita de terminar do jeito de sempre: um acerto de contas entre pares, com um nome sacrificado para a plateia parecer satisfeita, enquanto o funcionamento real do poder segue intocado. Ninguém aqui está dizendo que vai ser assim. Está dizendo que, se a história recente serve de amostra, apostar contra esse desfecho é apostar contra as evidências.
A indignação d’A Tribuna Regional não é contra um ministro, um partido ou um lado do espectro. É contra o hábito nacional de tratar a responsabilização de quem manda como um capítulo de novela — dramático, comovente, e sem consequência real depois que a novela sai do ar. Cada vez que isso se repete, fica mais difícil pedir ao leitor comum, que não tem foro privilegiado nem recurso protelatório, que continue acreditando que a lei é igual para todos.
Talvez este episódio seja diferente. Talvez os treze ex-ministros consigam o que pedem, e a apuração vá até o fim de verdade. Mas o cidadão que acompanha esse noticiário há décadas tem todo o direito de assistir com um pé atrás — e de perguntar, quando o próximo capítulo chegar com ares de final feliz: feliz para quem?

