Sobre a moda de tratar bem só quem pensa igual
Reparou como, de uns tempos pra cá, a simpatia virou moeda de troca? Você concorda comigo, eu sou seu maior fã. Você discorda, eu descubro um sarcasmo que nem sabia que tinha. A régua que decide se alguém merece educação deixou de medir civilidade e passou a medir concordância — e isso, convenhamos, é um jeito manso de dizer que a gente perdeu a paciência com quem pensa diferente.
O curioso é que isso se espalhou justamente numa época que fala mais do que nunca em liberdade de expressão, em democracia, em respeito às diferenças. Discursos bonitos, bandeiras erguidas, frases de efeito nas redes. Só que, na prática, basta alguém abrir a boca com uma opinião fora do consenso do grupo pra virar alvo — de ironia, de deboche, de um “bloqueio” que às vezes é literal. A distância entre o que se prega e o que se pratica nunca esteve tão visível.
Em Lapa, Contenda ou em qualquer cidade do interior, isso aparece em versão reduzida, mas nem por isso menos incômoda: na reunião de pais que vira discussão pessoal, no grupo de WhatsApp da rua que expulsa quem votou diferente, no comentário debochado embaixo da notícia sobre a obra que uma parte da cidade queria e a outra não. A escala muda, o mecanismo é o mesmo: gentileza como prêmio de consolação para quem já concorda com a gente.
O problema é que isso inverte a lógica da própria palavra. Gentileza não deveria precisar de motivo — muito menos de concordância prévia. Ela existe justamente para os momentos em que discordar seria mais fácil e mais cômodo. Tratar bem quem já pensa como eu não exige esforço nenhum; é o equivalente social de aplaudir a própria opinião com outra pessoa no meio.
E tem um detalhe que costuma passar batido: a forma como a gente trata quem discorda fala muito mais sobre nós do que sobre a pessoa discordante. Não é o outro que está sendo julgado quando alguém perde a educação diante de uma opinião diferente — é quem perdeu a educação. A gentileza, nesse sentido, não é sobre quem a recebe. É sobre quem escolhe oferecê-la, e em que condições está disposto a fazer isso.
Isso não significa concordar com tudo, nem fingir que toda opinião tem o mesmo peso ou a mesma base factual. Discordância é saudável — é, aliás, o combustível de qualquer debate público decente. O que está em jogo aqui não é o conteúdo da discordância, é a forma. Dá pra discordar com argumento e continuar tratando o outro como gente. O que não dá — ou não deveria dar — é usar a divergência como licença pra grosseria.
Talvez a pergunta que fica não seja “por que as pessoas estão mais grosseiras”, mas uma mais desconfortável: quantas vezes, esta semana, a gente mediu a educação que ofereceu pelo quanto a outra pessoa concordou com a gente? A resposta provavelmente incomoda mais do que qualquer notícia do noticiário.
No fim, a gentileza condicional não é gentileza — é só uma forma mais educada de dizer “eu só te respeito enquanto você me dá razão”. E isso, goste-se ou não, diz muito menos sobre quem discorda de nós do que sobre o tamanho da nossa própria tolerância.

