Coluna Bate Papo Informal

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Defender a democracia?

Quando defender as instituições vira desculpa para não perguntar nada, o preço que se paga não aparece em nenhuma planilha

Tem gente que se assusta com a pergunta, mas ela precisa ser feita: quanto custa defender a democracia? Não estamos falando do orçamento que sustenta eleições, tribunais e a máquina pública — isso está nos portais de transparência, quem quiser confere. O preço que interessa aqui é outro, e esse não aparece em nota fiscal nenhuma: é o preço da confiança que o cidadão deposita nas regras do jogo.

Ninguém discute que a democracia precisa de defesa. O problema começa quando “defender a democracia” vira sinônimo de defender pessoas, partidos ou governos específicos — e pior, quando serve de salvo-conduto para quem ocupa cargo importante escapar de ser questionado. Porque democracia não é escolher quem pode ser cobrado. É garantir que todos possam ser, sem exceção — inclusive quem diz estar do lado certo da história.

Quando surgem suspeitas, conflitos de interesse ou comportamentos que colocam em dúvida a imparcialidade de uma autoridade, a resposta democrática nunca deveria ser pedir silêncio em nome da própria democracia. Deveria ser o contrário: mais transparência, mais fiscalização, mais explicação. Instituição forte não teme ser examinada. Autoridade legítima entende que escrutínio público não é ataque — é manutenção.

E aqui mora um risco que a gente subestima: confundir instituição com quem ocupa a cadeira. O Supremo não é uma pessoa. O Congresso não é uma pessoa. Quando aceitamos erro, abuso ou opacidade porque “essa pessoa é indispensável para proteger a instituição”, plantamos um precedente perigoso — porque o poder muda de mãos, e o precedente fica. O que hoje parece tolerável porque beneficia o nosso lado, amanhã pode ser usado contra o que a gente defende.

É por isso que princípio não pode ter dono. Se a liberdade de expressão vale, vale quando a opinião agrada e quando incomoda. Se o Estado de Direito vale, vale quando a decisão favorece o nosso grupo e quando favorece o adversário. Defender regra só quando ela dá o resultado que a gente quer não é defender princípio — é torcida organizada com beca ou com faixa presidencial.

O custo mais alto, no entanto, é silencioso: é a confiança que evapora aos poucos. O trabalhador que passa a duvidar que o esforço compensa. O eleitor que sente que o voto virou formalidade. O cidadão que percebe que a responsabilização sempre alcança quem está embaixo e raramente quem está no topo. Esse cinismo não aparece em manchete, mas corrói por dentro — e é dali que nasce o terreno fértil para quem promete resolver tudo destruindo as regras que deveriam proteger todos.

Talvez seja hora de inverter a pergunta que a gente ouve tanto por aí. Não é que a democracia deva ser protegida a qualquer preço — existe preço alto demais. Não dá para trocar honestidade, transparência e igualdade perante a lei por uma paz de fachada. A democracia não pertence a quem ocupa palácio, tribunal ou gabinete. Pertence a quem vota, trabalha e espera que a regra valha para todo mundo.

Por isso a pergunta que fica não é só quanto custa defender a democracia. É quanto estamos dispostos a perder — em honra, em confiança, em esperança — para seguir acreditando nela. Dinheiro se recupera. Governo se substitui. Mas confiança perdida por uma geração inteira é conta que ninguém quer pagar.

Aramis Gorniski


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