CERENE – Abandono

Desespero é como ferrugem. Inicia como mancha imperceptível. Depois, cresce e vai corroendo o que encontra pela frente. O desespero corrói a alma por dentro. No decorrer da vida passamos por muitas experiências que o alimentam. Vivemos em meio a uma geração que, cansada de promessas enganadoras, vagueia de desilusão em desilusão.

Surgem neste quadro o alcoólico e sua família. A família cansada e desiludida com as promessas feitas durante anos passa a viver em desespero. Ele diz que sabe se controlar, que bebe só quando quer e que a bebida para ele na realidade não é problema nenhum. Tudo mentira. Toda hora arruma uma nova encrenca. São problemas com o patrão, problemas com os parentes, problemas financeiros, problemas de saúde, problemas de acidentes, problemas psicológicos , problemas, problemas e mais problemas. O desespero da família é grande. Ele não quer ajuda de ninguém.

Num desses desesperos da vida então a família toma uma decisão : vamos entregá-lo a sua própria vontade. Vai viver como ele quer. Ninguém da família briga mais com ele porque bebe. Não lavam mais a sua roupa, não preparam mais o seu alimento e não o recolhem mais quando está caído na rua completamente embriagado. Ele foi isolado do convívio da família. Assim como ele não tinha mais nenhuma responsabilidade com a família, a família deixa de ter responsabilidades com ele. É a solidão completa.

Mesmo assim ele não acorda. Agora ele pode beber a vontade e ninguém o perturba, Ele dá graças a Deus porque até que enfim a família o entendeu e reconheceu que o problema dele não é a bebida. Passa direto bebendo no bar ou em casa. O tempo é curto. Não se alimenta mais.

As conseqüências aparecem logo. A fraqueza física e o desânimo tomam conta de sua vida. Aquilo que achava que agora seria sua liberdade torna-se seu presidio. Por fim, seu corpo começa a dar sinais de falência de alguns órgãos. Talvez venha a vomitar sangue , confirmando uma úlcera estomacal que se rompe, ou ainda passa a ter delírios e alucinações.

Neste momento ele pede ajuda. Está morrendo. A família o leva até o hospital e lá ele recebe atendimento de emergência. É medicado. Começa o processo de desintoxicação. Entra em síndrome de abstinência. Tem diarréia, vômitos, taquicardia, sudorese, febre, convulsão e delírio. Em questão de dez dias passa a pior fase, o risco de vida se foi. É a primeira vez que isto acontece. A família continua desesperada. O medo é que ele volte para casa e continue tudo como estava.

O tratamento não pode ser só hospitalar e emergencial, tem que ser mais, tem que ter continuidade. Ele precisa não apenas tratar de sua úlcera ou de seu fígado, enfim de seu corpo, ele precisa ser tratado na sua estrutura psicológica que foi criada a partir de sua dependência. Precisa mudar de estilo de vida e isso leva tempo.

Admitir que se tem um problema, procurar ajuda de verdade , pensar diferente sobre a vida, mudar de idéia e opiniões, reavaliar relacionamentos pessoais, retomar responsabilidades e voltar a viver uma vida normal , tudo isso faz parte de um processo que leva o resto de sua vida. Tem que começar em algum lugar, em algum momento.

CERENE, ESTE É O LUGAR, ESTE É O MOMENTO!