A epidemia

O jornal da noite, da rede Globo, apresentou esta semana uma série de reportagens sobre o crack e muitos especialistas que foram entrevistados estão considerando o uso do crack como uma verdadeira epidemia. Não há mais controle sobre o uso de crack e esta droga esta disseminada por todas as classes sociais, cidades e locais, sejam públicos ou privados, em todas as idades, culturas ou grau de conhecimento.

O potencial destruidor do crack está em sua ação rápida e de curta duração, levando o dependente a buscá-lo novamente em minutos. As implicações estão na violência desencadeada para se conseguir recursos financeiros para sustentar esta ciranda macabra. Perdem-se todos os padrões de educação e a delinqüência anda lado a lado com o uso da droga. E temos então tráfico, troca de tiros com a polícia, balas perdidas, uma verdadeira guerra urbana.

A epidemia. A epidemia de que mesmo? Creio ser uma pergunta perfeitamente plausível pra o atual momento. Sofremos uma epidemia sim, mas de soporíferos, isto é, coisas que estão nos fazendo dormir diante desta miséria toda. Vivemos o “isto não é comigo”, tão intensamente que nada nos abala. O mundo está se desmanchando ao nosso redor e nada nos abala. Nossa família está se esfacelando e nada nos abala. Nossos filhos estão sendo criados por conselhos tutelares e assistentes sociais, mas nada nos abala. A nossa principal epidemia hoje é de falta de compromisso e responsabilidade. Nosso meio ambiente sofre e nós pagamos convivendo com novas doenças a cada dia. Nossas famílias se esfacelaram e nós pagamos o preço de nada mais dar certo na sociedade. É uma verdadeira epidemia.

Converso com psicólogas, pedagogas e assistentes sociais que trabalham nas prefeituras de diversos municípios dos três estados do sul do Brasil, a realidade é a mesma, a epidemia chegou e já está instalada em nosso meio. Não há comprometimento com nada, cada um quer viver apenas para si mesmo e aos outros cabe resolver os problemas sociais. Taxamos de loucos aqueles que ainda se importam.

A epidemia do crack é apenas um reflexo da verdadeira epidemia que sofremos hoje. Poderíamos declarar calamidade pública a nível nacional. Precisamos resgatar os valores éticos e morais que perdemos. Reclamar dos políticos? Não, eles são apenas o espelho do que nós somos. Elegemos pessoas do nosso meio e que pensam igual a nós mesmos. Os políticos somos nós, os traficantes somos nós, os usuários de crak somos nós.

Já fui agredido em palestras que estava proferindo quando falei do papel da família na sociedade e me perguntei porque as pessoas se ofenderam tanto quando falei sobre isto, a resposta demorou um pouco, mas veio: é que viver família é viver um compromisso e as pessoas não querem mais isso.

Epidemia sim, mas epidemia de falta de compromisso, responsabilidade, ética e moral. Precisamos lutar contra esta epidemia.