Sl 38 – Ainda que não substitua o texto em si, vamos à introdução, com vistas à interpretação e explicação contextualizada e atualizada, cristologicamente, dos Salmos, que têm em vista o conhecimento e a glória de Deus, em aroma suave, mediante Jesus Cristo. E nEle, na unidade do Espírito Santo, de fé em fé, edificação luteradora das consciências pávidas, exortação de soberbos e empedernidos, e consolo necessário, profícuo, ubérrimo dos corações atribulados.
O Salmo 38 é um Salmo de oração, no qual o salmista lamenta acerca dos seus pecados, que atribulam e angustiam a sua consciência, a tal ponto que não lhe permitem ver, da parte de Deus em relação a si, nada além da presença castigadora e responsabilizadora dEle, a saber: ira, juízo, morte, inferno. Tal realidade presente tem desdobramentos corpóreos no salmista, a começar pela tristeza que flagela o estômago, coere o tutano dos ossos, míngua a força e a vitalidade. Ademais, no externo, desfigura o rosto, faz desaparecer a aparência saudável, e afeta os sentidos, as emoções, o gesticular, o olhar. Porquanto, em verdade, sentir o pecado e ser flagelado por sua consciência em virtude dele é o martírio dos martírios. E colaboram, em sua presença cooperadora ruim, os inimigos externos, porquanto encurralam a pessoa temente lembrando-a do que a consciência sabe muito bem. Sim, eles, com logro, caçam a pessoa justa com ares de segurança maqueada como se Deus estivesse com eles contra a primeira. Isto gera sentimentos na pessoa que não ouviu acerca do perdão do seu pecado pessoal. Ademais, neste particular, coopera o fato de que Deus, em Sua presença e agir abscôndito, não frutifica, já já, o fruto do anúncio do perdão. À vista disto, o coração é pusilânime e temeroso, crendo que Deus, apesar do perdão possível de ser buscado, recebido e imputado, crê que Ele permanece irado em virtude do pecado e dos pecados. Por isso, o Salmo, exaltando os frutos e benefícios do perdão dos pecados, ensina a perseverança confiante e que, certificado do perdão, a pessoa pecadora não desespere, antes, em humildade paciente, defenda-se via oração contra a jactância do diabo, da carne, do mundo e dos inimigos externos. E, além disto, tanto mais, confiante no perdão proclamado, segundo a promessa divina, enfrente o que é preciso ser enfrentado, conscientizado de que agora, o verdadeiro e suficiente ajudador contra o pecado está em campo para imputar vitória e gerar vencedores, por graça divina mediante a fé em Jesus Cristo. Pois a destra de Deus é a destra dEle. Ela é justa e verdadeira. E é assim que o Espírito infunde consolo internamente por meio da fé em Jesus Cristo, o que redime do pecado e perdoa pecados, à gente penitente e crente.
Ao modo do salmista, vamos nós também, já que somos pecadores por natureza, e por isto mesmo pecam, pedir perdão a Deus mediante a fé em Jesus Cristo, e não desesperar diante do medo atribulador da consciência, ainda que tenhamos caído em pecado, cá e lá, muitas vezes, e no interno e externo nos verifiquemos sobrecarregados pela culpa do pecado cometido e sintamos, intensamente, o tempestuoso agir da carne e do sangue unidos aos inimigos espirituais como se não houvesse possibilidade nenhuma de perdão para nós junto a Deus Pai.
Em todo o sofrimento e tentação incomuns, a pessoa deve, em primeiro lugar, recorrer a Deus, reconhecendo que dEle procede tudo, em cooperação para o bem, quer venha do diabo quer das pessoas. Assim, faz, aqui, o salmista, que menciona seu sofrimento incomum, mas, antes de mais nada, ele recorre a Deus e aceita a ele da parte dEle. E deste modo ele, ajudado por Deus, aprende a ter paciência e temor dEle. Mas quem atenta para a pessoa e não aceita o sofrimento como provindo de Deus, torna-se impaciente e despreza a Ele, que responsabiliza e castiga de dois modos. Por um lado, na graça, como um pai bondoso, temporalmente. E por outro, na ira, como um juiz severo, eternamente. Pois, quando Deus, com quem está o perdão, investe contra alguém, a natureza da pessoa fica fraca e desanimada, por não saber se Ele ‘acomete’ contra ela por ira ou por graça; e, no temor da ira, começa a clamar: “Ó, Deus, não me castigues na Tua ira; antes, permite que seja na graça e temporalmente. Sê Pai e não juiz”.

