Coluna Bate Papo Informal

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Inclusão ou Ilusão Coletiva?

Você já reparou como certas palavras viram dogma? Basta questionar a forma como a inclusão está sendo feita nas escolas que alguém logo carimba: preconceito. Mas me diga, com honestidade de balcão de café: está funcionando mesmo? Está sendo bom para o aluno autista, para o professor exausto e para os outros vinte e tantos estudantes que dividem a mesma sala?

A ideia de incluir é civilizatória. É justa. É necessária. Ninguém em sã consciência defende segregação como regra. O problema não é o princípio — é o modo como ele foi jogado nas costas da escola como se fosse decreto mágico. Misturam-se realidades completamente diferentes dentro da mesma sala e espera-se que uma professora, com trinta alunos, resolva na base do “amor à profissão”. Amor não substitui estrutura. Nunca substituiu.

Há casos de crianças no espectro que acompanham bem a turma, com apoio adequado, mediação e planejamento. E há situações — cada vez mais frequentes — em que comportamentos agressivos, crises constantes e ausência total de autonomia transformam a sala num campo de sobrevivência. Ninguém aprende direito. Nem o aluno autista, que não recebe atendimento individualizado, nem o aluno típico, que passa a aula inteira em estado de alerta. Isso não é inclusão. É improviso institucionalizado.

Existe um ponto incômodo que quase ninguém quer tocar: quando se nivela o ritmo pelo aluno com maior defasagem, quem já poderia avançar fica estagnado. Educação não pode ser pautada pelo teto mais baixo. Ela precisa mirar no mais alto e criar mecanismos para que os demais alcancem. Do contrário, transformamos o mérito em constrangimento e o esforço em exceção.

E antes que alguém simplifique o debate: não se trata de culpar crianças ou famílias. Trata-se de reconhecer que há limites concretos. Uma sala com cinco alunos que demandam atenção constante, sem profissionais de apoio suficientes, é uma equação impossível. O professor não consegue atender plenamente nenhum deles. A conta simplesmente não fecha.

Também é preciso separar romantização de realidade. Autismo não é superpoder pop de rede social. Não é estética, nem etiqueta identitária. É um transtorno do neurodesenvolvimento com graus variados de comprometimento. Há quem tenha autonomia ampla. Há quem necessite de suporte intenso para tarefas básicas. Colocar todos sob a mesma bandeira simpática e ignorar as diferenças práticas é confortável — mas é desonesto.

E há ainda o silêncio constrangido dos outros pais. Muitos têm medo de falar. Temem o rótulo. Só que também é legítimo perguntar: e o direito de quem não consegue aprender porque a aula é interrompida diariamente? E a professora que adoece? E o aluno autista que, sem atendimento especializado, acaba isolado ou rejeitado pela própria dinâmica da turma? Estamos chamando isso de avanço?

Talvez o debate precise amadurecer. Inclusão não pode ser sinônimo de colocar todos no mesmo espaço físico e torcer para dar certo. Talvez seja hora de investir seriamente em salas de apoio estruturadas, profissionais especializados, turmas reduzidas, planos individualizados de verdade — não de papel. Nivelar por baixo nunca foi projeto educacional; é só desistência disfarçada.

No fim das contas, a pergunta que fica não é se devemos incluir. É como. Se o modelo atual não está fazendo bem a ninguém, insistir nele por medo de parecer insensível resolve o quê? Talvez esteja na hora de encarar o tema sem gritos, sem rótulos, mas também sem ilusões. Educação é coisa séria demais para virar tabu. E você, está disposto a discutir isso sem slogans prontos?

Aramis Gorniski


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