
Lapeana de 17 anos vence o Campeonato Brasileiro de Kung Fu Wushu em Maceió (AL) e confirma um caminho que já passou por título sul-americano e Mundial Júnior na China
Amanda Oliva desceu do leitai (o ringue do Wushu) em Maceió e abaixou a cabeça. Não foi cansaço — foi choro. Minutos antes, ela tinha vencido a decisão que a tornaria, aos 17 anos, campeã do 36º Campeonato Brasileiro de Kung Fu Wushu, disputado entre os dias 3 e 7 de setembro. Quando ergueram sua mão, o choro já tinha virado sorriso, um sorriso que ela mesma conta que não conseguia mais segurar.
A trajetória até esse pódio começou muito antes de qualquer ringue. Amanda tinha 3 anos quando entrou na capoeira, ao lado do irmão. Treinavam juntos até que ele decidiu parar — e como o pai só conseguia levar os dois, ela também teve que largar. Ficou fora das artes marciais por quase uma década, até que em 2021 surgiu a chance de experimentar um treino de Wushu Sanda, o “boxe chinês”, na Academia Corpo em Ação, na Lapa, sob orientação do técnico Joelson “Pará” Brandenburg. Foi só sábado, no início. Ela insistiu, convenceu o pai e entrou para treinar valendo.
Sua primeira luta veio quase um ano depois, e ela perdeu. Não tinha, na época, um treino focado em competição. Mas foi justamente ali, na derrota, que a decisão se firmou: “Foi meio que ali que virou essa chave, sabe? Eu tava mesmo com muito medo, eu continuei e consegui chegar onde eu tô.”
O Wushu Sanda segue pouco conhecido no Brasil — e na Lapa, mais ainda. Quando alguém pergunta o que ela luta, Amanda muitas vezes precisa comparar com muay thai ou kickboxing só para ser entendida, mesmo sabendo que a modalidade, parte do Kung Fu, segue outra lógica. É um dos motivos por trás dos projetos que a academia leva às escolas da cidade, tentando aproximar a modalidade de quem nunca ouviu falar dela.
Do Sul-Americano ao Mundial
Em junho de 2025, Amanda venceu três lutas seguidas e se sagrou campeã no 9º Campeonato Sul-Americano de Wushu, em Buenos Aires. O resultado garantiu vaga na Seleção Brasileira e a convocação para o Mundial Júnior da modalidade.
Em março de 2026, ela disputou o 10º Campeonato Mundial Júnior de Wushu, em Tianjin, na China — um dos principais eventos da categoria no mundo. A preparação teve apoio institucional da Prefeitura da Lapa e patrocínio da Sanepar, e a atleta recebeu homenagem da Câmara Municipal antes da viagem. Caiu logo na estreia, diante de uma das potências do esporte, mas guarda a experiência como aprendizado. O momento que mais marcou, no entanto, não foi dentro do ringue: “Era uma nação inteira ali nas minhas costas, eu levando, representando o Brasil, vestindo a regata, na luta, escrito o nome do meu país. Isso é uma coisa incrível, é indescritível.”
Amanda foi porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura — aos 16 anos, carregando sozinha o peso simbólico de representar o país diante das principais potências da modalidade.
Quatro anos até o ouro
O título brasileiro conquistado em Maceió tem um histórico por trás: era a quarta vez que Amanda disputava o Campeonato Brasileiro, em quatro anos seguidos, sem nunca ter fechado com ouro. Neste ano — o último dela ainda como juvenil, já que na próxima temporada passa a competir como adulta — a meta finalmente se cumpriu.
“Eu ergui minha mão e não conseguia parar de sorrir também, porque era uma sensação de dever cumprido. A gente treinou muito por aquilo, todo treino em final de semana, em feriado, em dia de descanso. Então realmente foi muito merecido.”
A rotina por trás do resultado é pesada: escola de manhã, trabalho à tarde, treino à noite — às vezes dois ou três por dia, até as 22h. Vida social, cursos técnico e de inglês entram na lista do que precisa ceder espaço quando chega época de campeonato. Amanda diz que já se acostumou; trata como consequência natural de quem decidiu, antes de cada luta, que vai ser campeã.
O que vem depois
O próximo objetivo já está marcado: o Campeonato Pan-Americano, de volta à Argentina, no mês que vem. Depois, a mira segue no que ela chama simplesmente de “o topo que a gente puder chegar” — o que pode incluir, já como adulta, um novo Mundial.
Para quem, na Lapa, pensa em começar numa arte marcial sem saber se vai dar certo, o recado de Amanda é direto: crianças até 17 anos treinam sem pagar inscrição na Academia Corpo em Ação — basta procurar o Pará. “Se você tiver força de vontade, se você quiser, você consegue chegar aonde eu cheguei”, resume ela, que foi da capoeira de criança ao ouro nacional levando, pelo caminho, a bandeira do Brasil nas costas.

