
Livro de estreia solo de Paulo Cesar Aubrift Janz reúne mais de 60 crônicas, causos e contos que atravessam a infância no bairro, o tempo de quartel, a carreira no saneamento e um encontro de quase-morte durante uma leucemia
Paulo Cesar Aubrift Janz tem 75 anos, nasceu na Lapa e nunca escreveu um diário. Não guardou datas, fotos ou recortes de jornal. E foi exatamente dessa memória sem arquivo — só vivida, contada e recontada nas rodas de família — que nasceu “Gotas de Saudades”, livro lançado no último sábado (11), na Casa do Pastel, numa tarde chuvosa que reuniu amigos e parentes para o autor apresentar o que descreve como um trabalho escrito com muito carinho.
O título resume o método. “Cada história retrata um acontecimento e revivê-lo será, como deixar escorrer uma gota das saudades de um tempo que já passou”, escreve Janz na nota de abertura. São mais de 60 textos organizados em quatro blocos — Causos e Fatos, Crônicas, Pequenos Contos e um Capítulo Especial — que somam mais de 230 páginas de memória lapeana.
Da oficina de bicicletas ao escritório da Sanepar
Filho de Lothário Waldemar Janz e Diahyr Aubrift Janz, Paulo cresceu na oficina de conserto e pintura de bicicletas do pai, na esquina onde a mãe recebia os fregueses com simpatia e uma rodada de chimarrão — ou, perto do meio-dia, uma caipirinha bem gelada “para não deixar ninguém alcoolizado”, como registra o livro. Formou-se contabilista em 1972, serviu o Exército no 1/5º RO 105 na própria Lapa e, no mesmo ano, prestou concurso para Caixa Recebedor da Sanepar. Foi o primeiro funcionário contratado pela estatal na cidade — chegou a cortar grama e plantar flores no escritório recém-construído, antes mesmo de ter zeladora.
Promovido a chefe do escritório regional em 1973, Janz permaneceu à frente da Sanepar na Lapa até se aposentar, em 2003. Depois, já na vida pública municipal, passou pelas secretarias de Obras e de Habitação e pela Diretoria de Urbanismo da Prefeitura, entre 2013 e 2020 — período interrompido em 2013 por um tratamento de leucemia mieloide aguda, do qual só se recuperaria em 2016.
Benzedores, mascates e um avô que chegou como estranho
O livro dedica boa parte de suas páginas a personagens que a Lapa mais antiga reconhece de cor: benzedores como Dona Negra do Pavoski, que curou o autor de uma alergia crônica com um galho de arruda, ou o alemão de Videira que atendia com pêndulo e orações — e que Janz, ainda jovem, confrontou publicamente por pregar o perdão e recomendar vingança na mesma respiração. Há também a reconstituição da vida do avô paterno, Waldemar Oscar Janz, mascate que rodou o interior do Paraná vendendo secos e molhados de carroça antes de se fixar na Lapa — um avô que Paulo conheceu, segundo conta, quando o homem já havia passado a manhã inteira interrogando-o, sem se identificar, na porta da oficina do pai.
A cidade também aparece pelo viés do futebol: um capítulo reconstrói causos do União Futebol Clube, do lendário presidente Napoleão Ferrari — três vezes vereador e vice-prefeito — a um árbitro da Liga Campo-larguense que confundiu os times por causa de uma troca de uniformes de última hora.
O capítulo que dá nome à saudade
O momento mais pessoal do livro está reservado para o fim. Em “Meu Caso com a Leo” — jogo de palavras com “leucemia” —, Janz narra o início dos sintomas que ele soube depois serem da doença: o cansaço súbito depois de anos como homem de força física, o dedo cortado na pesca que não cicatrizava, o sangramento dentário que os médicos não conseguiam explicar. Em “A Luz no Túnel: Verdade ou Ficção”, ele reconstrói o sonho vívido do período em coma — uma estação de trem, um túnel entre montanhas e o encontro com os sogros já falecidos, que o convidam para uma viagem que ele recusa por não ter avisado a esposa. “Fico a refletir, se eu embarcasse naquele trem, naquele dia, será que eu escreveria esta crônica?”, escreve.
Um exemplar para o acervo da cidade
Paulo Janz deixou um exemplar autografado na redação de A Tribuna Regional, que passa a integrar o acervo de obras históricas sobre a Lapa mantido pelo jornal. “Gotas de Saudades” já está disponível para quem quiser reencontrar, nas palavras do autor, um tempo que já passou — mas que continua vivo em quem se dispõe a contar.

