
A cidade nasceu sob a invocação de Santo Antônio e nunca largou a mão dele. Em 2026 são 257 anos de uma história que começou numa capelinha de madeira e atravessou guerra, fé e até um roubo que ninguém esqueceu.
Não é coincidência que o aniversário da Lapa caia no Dia de Santo Antônio. É filiação. Quando, em 13 de junho de 1769, ergueu-se aqui a Freguesia de Santo Antônio da Lapa, o nome do povoado e o nome do padroeiro vieram no mesmo batismo.
De lá para cá, a cidade e o santo envelhecem juntos. Neste sábado, dia 13, completam mais uma volta lado a lado.
No coração dessa história está a Igreja Matriz, a construção mais antiga do município. Antes dela, havia apenas uma pequena capela de madeira, onde se venerava uma imagem de Santo Antônio de Lisboa trazida de Portugal por volta de 1768. Foi dessa devoção dos tropeiros — que paravam aqui para descansar na longa rota entre o Rio Grande do Sul e São Paulo — que nasceu tudo o mais.
Uma igreja mais antiga que muita coisa por aqui
A Matriz que conhecemos teve a construção iniciada em 1769 e concluída em 1784, erguida na técnica da taipa de pilão, com a contribuição decisiva do braço escravizado. Estilo colonial português, linhas sóbrias, fachada pesada suavizada pelo desenho curvo do frontão.
Pelo valor histórico e arquitetônico, foi tombada pelo IPHAN em abril de 1938 e, mais tarde, pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, em 1972. É hoje peça central de um dos centros históricos mais bem preservados do Sul do país.
A Matriz também guarda capítulos que vão além da fé. Durante o Cerco da Lapa, em 1894, suas paredes grossas serviram de abrigo nos 26 dias de resistência das forças legalistas comandadas pelo General Antônio Ernesto Gomes Carneiro.
Os mortos da batalha, conta a tradição local, chegaram a ser depositados num poço, e só depois foram transladados ao Pantheon dos Heróis — inaugurado em 1944, no cinquentenário do Cerco. É lá, e não na igreja, que repousam até hoje o General Carneiro e os companheiros que tombaram com ele. A Matriz foi testemunha e abrigo; o repouso final dos heróis ficou ali ao lado.
O padroeiro: um português que pregava aos pobres
Quem é, afinal, o santo que dá nome à cidade? Antônio nasceu em Lisboa por volta de 1195, com o nome de batismo de Fernando de Bulhões, em família nobre. Estudou com os agostinianos, mas mudou de rumo aos vinte e poucos anos, ao se impressionar com o martírio de cinco missionários franciscanos.
Vestiu o hábito dos Frades Menores, adotou o nome de Antônio e partiu como pregador. A oratória o consagrou: pregava em praças abertas porque as igrejas não comportavam o público, e São Francisco de Assis o designou para ensinar teologia aos demais frades.
Morreu cedo, aos 36 anos, em 13 de junho de 1231, perto de Pádua — daí o duplo nome pelo qual é conhecido, de Pádua e de Lisboa. A fama de santidade foi tamanha que a canonização veio em menos de um ano, em 1232, uma das mais rápidas da história da Igreja. Em 1946, o Papa Pio XII o proclamou Doutor da Igreja.
As imagens quase sempre o mostram com o Menino Jesus no colo e um lírio na mão. E há razões de sobra para o carinho popular: a tradição do Pão dos Pobres vem do hábito do frade de distribuir o pão do convento aos necessitados, e a fama de casamenteiro nasceu de sua defesa das moças sem dote, para quem intercedia junto às famílias ricas.
A imagem que a Lapa perdeu
Há uma ferida antiga nessa devoção. A imagem original de Santo Antônio, aquela vinda de Portugal no século XVIII, peça policromada com o Menino Jesus nos braços e resplendores de prata sobre ambos, foi roubada em 1986 e nunca mais encontrada.
Era de valor histórico e artístico inestimável, e seu desaparecimento integrou a onda de saques ao patrimônio sacro que assolou o Brasil entre os anos 1970 e 1990, alimentada por colecionadores e pela frágil segurança das igrejas coloniais. No lugar dela, uma réplica foi colocada no altar para que os devotos continuassem suas orações.
A festa, hoje
Como manda a tradição, o dia do padroeiro é precedido pela Trezena de Santo Antônio — treze dias de orações, deste 31 de maio a 12 de junho, que desembocam na celebração de 13 de junho, com a bênção dos pãezinhos.
Já a festa cívica, em comemoração aos 257 anos da cidade, ocupa a Praça General Carneiro, em frente à Matriz, de 11 a 14 de junho, com praça de alimentação, atrações culturais e shows gratuitos. A abertura é na quinta-feira (11); na sexta (12) sobe ao palco a dupla US Agroboy; no sábado (13), Jeann e Júlio; e no domingo (14), Brenno e Matheus. A programação inclui ainda o BMX Show Time, com manobras radicais, e atividades infantis.
No sábado (13), às 19h, a Prefeitura instala um telão na praça para a transmissão da partida do Brasil contra o Marrocos pela Copa do Mundo. Fé, quermesse e futebol no mesmo fim de semana — uma combinação difícil de bater.
É a velha aliança entre o sagrado e o profano: a missa e a quermesse, a oração e o pastel na praça. Coisa que a Lapa faz há 257 anos.
SIMPATIAS DE SANTO ANTÔNIO
Toda cidade católica tem as suas. Reunimos as mais conhecidas do folclore luso-brasileiro, transmitidas de avó para neta na véspera do dia do santo. A própria Igreja costuma olhá-las com um sorriso complacente, tratando-as como “piedade popular” — desde que o respeito ao santo seja mantido. Fica o registro, mais por carinho à tradição do que por garantia de resultados.
Para arrumar um namorado. A clássica do santo de cabeça para baixo. Vira-se a imagem de cabeça para baixo (ou de frente para a parede, no guarda-roupa) e avisa-se ao santo que ele só volta à posição normal quando aparecer um amor de verdade. Uma cobrança bem-humorada.
Para casar logo. Para quem já namora e quer o próximo passo: uma fita azul com uma medalhinha de Santo Antônio, usada na cintura por baixo da roupa durante os treze dias da Trezena. No dia 13, reza-se pelo matrimônio e guarda-se a fita até o casamento.
Para descobrir o nome do futuro amor. Na noite do dia 12, escrevem-se nomes em pedacinhos de papel enrolados, jogados numa bacia com água embaixo da cama. Na manhã do dia 13, o papel que tiver se aberto sozinho revela o nome.
Para fartura na casa. Inspirada no próprio santo dos pães: guarda-se o pãozinho abençoado do dia 13 dentro da lata de arroz ou açúcar. Diz a tradição que, enquanto ele estiver ali, não falta alimento. No ano seguinte, troca-se o pão antigo pelo novo.


