Intolerância, incoerência e a elite branca

O que tem a ver, neste momento que o país atravessa, a intolerância, a (in)coerência e os rótulos sociais, como, por exemplo, “elite branca”?

Muita coisa… “Tolerância”, palavra que nunca foi tão dita… Mas, como diria o sempre gênio Shakespeare, palavras não sâo atos.

Pregamos a tolerância religiosa, condenando com veemência o terrorismo do estado islâmico. Mas, tiramos sarro daquela crente, daquele católico praticante, daquele espírita e daquela moça que usa véu. Muitos se acham superiores, ou por serem ateus, ou por acreditarem que a sua crença já os salvou, mesmo que os seus atos não reflitam isso…

Pregamos tolerância e respeito entre os sexos. Mas, se a guria se veste com pouca roupa é puta. Se se veste com muita, é maria mijona. Se a Tammy Gretchen tira os peitos, vira chacota. Se o amigo é gay, já não é mais tão amigo. Se o cara paga a conta pra menina e ela se sente à vontade com isso, ela é submissa e ele, machista.

Por fim, pregamos ainda a tolerância política. Mas, se somos petistas, o resto do mundo é ignorante e burro. E, se somos psdbistas, o resto do mundo é ignorante e burro. Tudo muito estranho, não?! Não há diálogo, não há reflexão (ao menos para a grande massa da população, que acredita veementemente estar proferindo o discurso correto). O problema é, realmente, a classe social, a cor da pele ou a conta bancária, como pregam por aí? Ou o problema é que, nós, todos, independente de posição partidária, cor, sexo, religião, condições financeiras, estamos sentindo na pele e no bolso as consequências da corrupção em todos o poderes e da ingerência de um País, da falência das instituições?!

Aí, entra a incoerência… Após parte da população demonstrar sua insatisfação com a Presidente, no último domingo, no “panelaço”, os defensores da atual administração saíram com o discurso pronto de que é isso é coisa de “burguesia”, de “coxinha” e da “elite branca”. Será?! Onde está a coerência com o discurso democrático e a tolerância com os demais, que pensam diferente? É bom refletir, antes de mais nada que um partido e seus simpatizantes, que acham que a classe média não pode protestar, é o partido que nunca vai tirar ninguém da pobreza. Afinal, se isso ocorrer, estas pessoas necessitadas passam a ser seus inimigos.

Quer ver mais exemplo de incoerência? Basta analisar a condescendência do governo com o MST, contrastando com a mão forte empregada contra o caminhoneiros. Ou, ainda, o discurso de Dilma, após o panelaço, afirmando que o seu governo apoia a livre expressão e a democracia.

Incoerência, sim, leitor! Se você ainda não assistiu, tendo a oportunidade, assista o vídeo (que está circulando na internet) de João Pedro Stédile, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que, em portunhol fluente e impecável, falou, no último dia 5, para uma multidão de venezuelanos que, em Caracas. Stédile, segundo o próprio, falava “em nome do povo brasileiro”, quem sabe convicto de que, sim, ele representava o país. De fato, coleciona razões para pensar e agir assim: poucos dias antes, fora convocado pelo ex-presidente Lula para comandar o seu “exército” e combater nas ruas os críticos da Petrobras e as “elites brancas e ricas”. Isso é exemplo de democracia?

Pois no mesmíssimo dia em que Stédile cantava louvores a Hugo Chávez em Caracas, seu “exército” entrava em ação no Brasil. Com a espantosa anuência do governo, que nada faz para contê-lo, o MST vem sendo protagonista de atos e posturas que claramente atentam contra a democracia e as leis – e também contra o bom senso, na medida em que vão de encontro ao desenvolvimento científico e tecnológico. Exemplo deste comportamento destrutivo foi a invasão, no dia 5, de um campo experimental de eucaliptos em Itapetininga (SP). O ato pôs abaixo pelo menos uma década de pesquisa florestal.

Para enfrentar todo esse caos, não se viu a Força Nacional de Segurança, nem foram aplicadas grandes multas – para citar duas medidas tomadas pelo governo durante a recente greve dos caminhoneiros. Por mais que tenhamos restrições, expressas neste espaço dias atrás, à maneira como a paralisação foi conduzida, não se pode deixar de denunciar a gritante diferença de tratamento num e noutro caso. Os caminhoneiros sentiram o braço da lei. Já os sem-terra sentiram os afagos de Dilma Rousseff, que chamou militantes para serem convidadas de honra na cerimônia de sanção da lei do feminicídio, na segunda-feira. No dia seguinte, o MST e outros movimentos ainda foram recebidos pelo ministro da Previdência, Carlos Eduardo Gabas, que subiu em carro de som para dialogar com os manifestantes.

Não surpreende, tendo em vista que, no ano passado, a Presidente deu sinal de que tem consciência da dívida do PT com a milícia responsável por atos de vandalismo e destruição, de desrespeito às leis e ao Estado Democrático de Direito. Como? A efetivação da garantia dada por meio do então ministro Gilberto Carvalho: serem recebidos por Dilma, o que efetivamente ocorreu.

As práticas desses grupos, aliás, são muito parecidas com as dos black blocs urbanos que se infiltraram nas manifestações populares de 2013 para quebrar vitrines de lojas e agências bancárias, e com os quais Carvalho também demonstrou a intenção de negociar – um gesto que empresta caráter de legalidade a movimentos diametralmente opostos aos valores democráticos cuja defesa deveria ser um compromisso inalienável dos que estão à frente do Estado brasileiro.

E, agora, diante dos manifestos de 15 de março, qual será a postura do Governo e seus militantes? Liberdade de expressão para os que não concordam com suas ações, ou o braço da lei (ou, ainda o braço dos militantes pro-governo, que não aceitam ouvir o discurso do outro lado da moeda)?