Só orando por si mesmo!

Na semana que passou, por conta de acontecimentos nada agradáveis envolvendo profissionais da saúde, me lembrei de um caso que passei há cerca de três anos, quando descobri que estava com trombose venosa profunda na perna direita, iniciando na veia cava inferior e descendo por várias outras…

Mas, até descobrir a tal enfermidade… Um Deus nos acuda! Primeiro diagnóstico possível: apendicite. O doutor me mandou fazer alguns exames e, como não havia mais recursos aqui na Lapa para me atender caso fosse realmente a tal apendicite, me pediu que procurasse um hospital em Curitiba. Lá fui eu. Cheguei ao tal hospital e os médicos me pediram novamente exames que tinham sido feitos na Lapa. O médico de plantão, professor universitário, parecia me tratar como uma cobaia. Estava com um residente ao seu lado e perguntava pra ele: qual é o diagnóstico da paciente? E ele respondia: infecção na bexiga! “Santo Deus”, eu pensava, “como, se meus exames tinham dado bons neste caso?” Ficava pensando qual seria o próximo diagnóstico…

Por final, me mandaram para uma videolaparoscopia exploratória. Diagnóstico: infecção no útero. “Como assim?”, eu perguntava. Afinal, fazia poucos dias que tinha feito exames e estava tudo em ordem…

Um dia depois, já em alta, fui pra casa. Mas, as dores persistiam… Fui a outro médico, que disse que se tratar de apendicite (!) e me mandou procurar um especialista amigo dele, em Curitiba. Não fui. Apendicite? Já tinham feito a tal videolaparoscopia e não tinha nada lá!

Passaram-se mais alguns dias e vários diagnósticos… Até que resolvi deixar de tomar os remédios para dor que haviam me indicado. Resultado: a dor ficou maior ainda, não conseguia praticamente colocar o pé no chão.

Voltei ao médico (o que me atendeu por primeiro) e ele me pediu para, novamente, ir até o hospital em Curitiba, onde haviam feito a videolaparoscopia. Afinal, já estavam acompanhando meu caso. E lá fui eu!

Cheguei ao hospital e o médico de plantão me atendeu. Na primeira olhada em minha perna já lascou: é trombose e você vai ficar internada.

E lá se foram sete dias de molho na cama do hospital e mais alguns meses em tratamento, além de cuidados constantes.

E essa história toda deste meu caso serve para quê, afinal? Para mostrar que, muitas vezes o diagnóstico pode ser difícil (como o meu era), mas o paciente deve e precisa ser tratado com respeito, com humanidade. Não somos apenas mais um que surge na porta de um consultório, de um Pronto Atendimento ou Pronto Socorro…

A história serve para mostrar que é necessário mais humanização no atendimento à saúde, tanto particular como pública. Descontando o atendimento prestado pelo primeiro médico que me atendeu e o senhorzinho que chegou ao diagnóstico de trombose, todos me atenderam como se eu fosse apenas mais um número em sua frente, uma estatística, e não um ser humano que busca solução para suas dores.

E, como dito no início do texto, na última semana ficamos sabendo de mais um caso de falta de tato, falta de bom senso e humanização na saúde da Lapa. No Pronto Atendimento, a profissional (citada na matéria do leitor Benedito Gribner, nesta edição) negou o acesso ao médico para o paciente.

Muitos podem dizer, neste momento: “Ah! Minha filha… Não é fácil trabalhar com o povo!” Eu concordo. Mas, se você não gosta de trabalhar com gente e a sua função é esta, está na hora de rever seus conceitos e procurar outra coisa para fazer da vida…

Outros podem dizer que o problema do atendimento adequado à saúde é a falta de recursos. Concordo em partes. Pois muitos dos problemas poderiam ser resolvidos com boa vontade, trabalho em equipe e HUMANIZAÇÃO no atendimento.

E o que é, afinal, a tal humanização? Se o contexto da humanização do atendimento na saúde, poderemos notar que sua origem se dá no sentimento inato das pessoas em praticar o bem e a caridade.

E qual é o juramento mesmo dos médicos e enfermeiros?

A humanização também remete à necessidade de resgate de um atendimento humanizado, focando a dignidade das pessoas em situações de necessidade de cuidados ou atenção. Se fizermos uma volta à origem do atendimento em saúde, veremos que os hospitais, inicialmente, foram construídos para acolher os inválidos, carentes e vitimados das guerras. Não existia, a princípio, uma conotação precípua de atendimento médico.

Segundo Foucault, esta forma de atendimento representaria uma espécie de segregação social, onde as classes menos favorecidas teriam algum tipo de ajuda oferecida geralmente por instituições religiosas, e não “contaminariam” as classes mais diferenciadas, que podiam pagar seus atendimentos em nível domiciliar. Este aparente paradoxo entre a caridade e a exclusão persistiu até que o avanço tecnológico obrigou os profissionais a procurarem os hospitais, já que, nestes, o conhecimento e a ciência se desenvolviam.

Mas, hoje, o que fazer para determinar a mudança de paradigmas e formas de fazer saúde com dignidade, qualidade e eficiência? Talvez se os profissionais atuarem realmente com gosto pelo que fazem, com olhar sensível sobre o paciente, pensando que o que os faz trabalharem ali não é simplesmente o salário que será depositado em suas contas ao final de cada mês.

Para trabalhar com gente, é preciso gostar de gente. É preciso saber se colocar no lugar do outro para buscar entender o que se passa. Este sim, pode ser realmente chamado de profissional da saúde.

E, por infelizmente estarmos nas mãos, muitas vezes, de profissionais pouco compromissados (que não se sintam ofendidos, aqui, todos aqueles competentes e maravilhosos profissionais que realmente honram o seu diploma), é preciso que a população não se cale.

Se você foi mal atendido pela equipe de saúde, leve sua reclamação à Secretaria de Saúde, à Delegacia, à ouvidoria… Mas não se cale. É preciso exigir dignidade e humanidade no atendimento à população.

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Para os profissionais que estão cansados de atender a população, seja por qual motivo for:

“Nas horas graves, os olhos ficam cegos; é preciso, então, enxergar com o coração”. (Antoine de Saint-Exupery)