Diário de Bordo

Confira o dia-a-dia do editor do jornal A Tribuna Regional neste projeto de saúde.

Prá começar

Estou me tornando um chato. Sim! Um chato que está intimando os outros a exercitar. Prá todo mundo que eu posso, recomendo começar a se mexer, nem que seja levantar do sofá e caminhar em frente de casa. Não consigo mais me ver sedentário como há quase dois meses atrás.

Tem uma coisa que me incomoda ainda. O cigarro. Me perguntam sempre se já consegui largar deste vício. Não, pessoal, ainda não deixei de fumar. Mas, a redução na quantidade foi drástica. Eu costumava queimar até três carteiras por dia. Hoje, quando passa de uma, é exceção. Geralmente sobra de um dia pro outro. Esse, sinceramente, é um dos meus grandes arrependimentos. No entanto, já tenho um prazo. Em pouco tempo me livro disso.

Vamos ao diário.

Sexta-Feira:

Feriadão, nada de folga. Impressão atrasada do jornal significa sexta-feira e sábado comprometido. Ossos do ofício. Não quero pensar muito no que tenho pela frente, pois o treinamento no campo básico do exército não deve ser mole. Já se tornou rotina, pelo menos uma vez ao dia, faça chuva ou faça sol, tenho que pedalar com Matheus, meu filho de 10 anos de idade. Do mesmo modo que eu, ele fica irrequieto quando muito parado. Pedalamos logo depois do almoço, só que não só nós dois. Minha esposa Juliana e meu caçula Felipe também participaram. É muito gostoso ter a família reunida numa atividade saudável. Um sentimento de harmonia e união. Foi compensador. À tarde fizemos uma reunião básica com todos os integrantes do Nada a Perder, Tudo a Ganhar. Foi um momento descontraído prá colocar a conversa em dia, pois apesar de estarmos em contato direto com cada profissional, não havia tempo prá um encontro de todos. Já estamos pensando à frente, na segunda etapa.

Sábado:

Pedalar, pedalar, pedalar. Eu, Matheus e seu amigo Patrick resolvemos subir ao Monge pedalando. É sofrido, mas a descida compensa. Sem a menor dúvida. Lá pudemos apreciar a galera do parapente. O amigo Robson estava treinando outro “piloto” na pista do Cristo. É um esporte belíssimo, de um contato tão íntimo com a natureza, pois depende de observações atmosféricas e observações dos pássaros. Através de sinais destes o piloto pode alçar voo ou não. Fiquei pensando na quantidade de esportes e atividades diferentes que poderíamos ter no alto do morro do Monge, mas isso é uma outra história.

Domingo:

Páscoa, reunião de família com churrasco, cerveja, mais churrasco, mais cerveja, um chocolatinho amargo prá balancear. Mas exercício que é bom, nada. O corpo da gente precisa de folga também. Ao menos um dia na semana é prá relaxar, saborear os benefícios do suor da semana. Dá prá se permitir. Claro que o coelhinho da Páscoa também trouxe presente prá mim. A maioria é chocolate amargo. Agora que já passei tanto tempo sem doces, o paladar está se tornando mais seletivo. Dá a impressão de que o tal amargo é doce.

Ansiedade e medo. Fui dormir pensando horrores do Campo de Treinamento.

Segunda-Feira:

Seis e meia da manhã saindo de casa. Pronto prá vestir a farda do glorioso Exército Brasileiro. Orgulhosamente me dirigi ao 15º GAC AP para o meu desafio: Incorporar como recruta no Campo de Instrução Básica do Exército Brasileiro. Sempre admirei a carreira militar e, admito, não busquei segui-la por comodismo, afinal eu já estava trabalhando no jornal desde os treze anos e achava que meu futuro estava garantido por sucessão (prá adolescente tudo é fácil, a gente acha desculpa toda hora). Essa “fuga” do serviço militar sempre esteve entre minhas frustrações. Todo mundo tem na sua vida algumas. E todo mundo guarda isso a sete chaves, seja um namoro rompido precocemente, seja um emprego não aceito por medo de arriscar, ou quem sabe um ano repetido na escola que atrapalhou a programação da vida. Minha frustração era não ter pelo menos me arriscado e enfrentado a disciplina e rigidez do EB – Exército Brasileiro. Sete e meia da manhã e eu estava fardado, “armado” e pronto pro treinamento. Para chegar ao campo não é na boléia do caminhão, não. É marchando. O trajeto de oito quilômetros foi executado pelas ruas da cidade, num roteiro planejado até o terreno da base. Chegamos lá próximo às 11 horas da manhã e a primeira missão foi a montagem das barracas para as tropas. Já de início posso dizer que a união e companheirismo são fundamentais até prá isso. Os recrutas iam montando e eu só seguia ordens prá não atrapalhar. Afinal, eu sou estrangeiro neste terreno. Gurizada parceira. Rapidinho o serviço tava pronto.

Fui convocado para receber uma instrução sobre a estrutura da instituição e detalhes importantes que os outros soldados já tinham aprendido durante o período básico. A estratégia e planejamento intenso estão presentes na organização militar, desde o menor serviço até a maior unidade. Tudo tem objetivo e método.

Primeiro almoço no campo. Aquela pressão dos instrutores. É realmente espantoso. Os recrutas sempre estão em movimento. Correndo, saltitando, andando, fazendo ordem unida. A primeira impressão é que isso é exagero, mas não é. Esses exercícios fortalecem tanto o corpo do soldado, preparam para uma eventual batalha, onde não existe lugar para reclamar. Aparenta ser impossível ficar o dia todo sob pressão. É apenas impressão. A cada período os instrutores mandam os soldados sentar ou entrar em forma ou bradar mais alto as canções militares. Ninguém percebe, mas essas pausas são planejadas. É o tempo necessário para recarregar energia. Claro que não aparenta ser descanso, a pressão psicológica é grande, mas enquanto o instrutor está falando, o soldado descansa o corpo.

Almoço de primeira. O Rancho do 15º GAC AP está de parabéns, pois consegue oferecer uma comida simples, mas muito bem preparada.

Depois da refeição, uma pequena pausa e logo saímos para a primeira pista do dia: HPPS – Resgate de Feridos em Batalha. Nesta oficina são colocadas diversas situações possíveis e os recrutas têm que agir como se estivessem na guerra. Queimaduras, fratura exposta, hipotermia, picada de cobra, entre outros casos são apresentados e cada um dos soldados têm que responder ao instrutor, em cada caso, o que faria. Técnicas simples para transportes de feridos são o ponto alto. Com uma simples manta ou apenas a gandola (parte superior da farda) cria-se uma maca. Com apenas a manta dá prá transportar o companheiro para um lugar seguro. Esses e outros modos de resgate foram apresentados e apresentados e reapresentados. Todo mundo tinha que saber prá poder dar por terminada a pista. Durou a tarde toda de segunda-feira. Voltamos à base, distante três quilômetros pela mata, para render a Bandeira do Brasil. Ali nos avisaram que não iríamos jantar, pois teríamos Oficina de Armadilhas e Sobrevivência na Selva, onde receberíamos uma galinha viva e pronto.

Matar, depenar, temperar e assar são por conta dos recrutas. Mas não sem antes o instrutor apresentar todas as técnicas de armadilha de campo, que servem tanto para caça como para ferir o inimigo. Muita engenhosidade nas armadilhas. Trabalho de primeira. Depois da ‘caça’ simulada pelas armadilhas, ensinaram a abater e pelar o animal, neste último caso utilizando um tubo de caneta ou semelhante objeto. Rústico prá caramba. Mas, prático e rápido. Me designaram prá finalizar o pobre do coelho. E eu que já tinha feito amizade com o bicho fui lá. A primeira marretada acertei na minha mão. Na segunda vez consegui abater o pobre do animal. Certeza que senti pena dele, mas depois de assado ele estava mais gostoso.

Em poucos minutos o coelho era uma peça de carne e a galinha uma saborosa futura refeição. Coronel Chiesa estava presente à instrução e acabou ensinando até os mais experientes uma nova maneira de temperar a caça. Utilizando o próprio sangue do animal, cozido até secar, utiliza-se este resíduo para salgar a carne. Além de fonte de ferro para o combatente na mata, o sabor do assado fica excelente. Depois da instrução, os recrutas passariam a noite na mata, mas eu, como bon vivant que sou, fui chamado a voltar à base do campo e dormir numa cama arrumadinha. Os companheiros ficaram na mata. Segundo eles, foi muito tranquilo dormir ao redor da fogueira.

Terça-Feira:

Alvorada às 6 da manhã. Havia muito tempo que eu não acordava nessa hora. Em poucos minutos os recrutas tem que ficar prontos para o reinício dos trabalhos. Se bobear, atrasa todo mundo. Com a tropa reunida, é realizado o hasteamento da Bandeira e, após um excelente café da manhã (isso não é ironia, é verdade mesmo), começa o treinamento. Mesmo ritmo e intensidade do dia anterior, mas pro grupo Alfa, no qual estou incorporado, o pior já passou, afinal, pelo que ouvi de relance as duas pistas da segunda-feira são as mais cruéis, ficando as mais fáceis para os outros dias. Há! Enganei vocês. Nada é fácil no campo. Mas sabendo que uma parte da missão já tinha sido realizada, os jovens soldados estavam com cabeça erguida e moral alta prá continuar. Pista de Progressão Diurna, traduzindo – um caminho cheio de obstáculos simulando um ataque em silencio pela mata. Mas muito bem escolhido. Desde banhado até riacho, passando por arame farpados e muito mais. Os soldados eram lançados em dupla no roteiro e tinham que executar diversas técnicas de evasão e dissuasão no caminho. Foi puxada a pista, mas muito técnica. Aprendemos muito ali, além de ter o prazer de rastejar no barro e se esconder na lama.

A volta à base foi um alívio, pra tirar o coturno molhado e poder tomar um banho. Só que o banho é gelado. Mesmo assim é revigorante. Descobri também porque o coturno é tão apertado. Prá poder garantir ao menos o prazer de tirar ele do pé ao final de um dia árduo de treinamento (desculpem os combatentes, mas essa piada infame eu tinha que fazer hehe). Os calos já se faziam notar e chamavam atenção a cada marcha. À tarde fui encaminhado prá outra tropa, visando participar da Pista de Cordas. Achei que ia ser fácil e coisa e tal, mas aquela travessia pendurado por cima do rio é sofrida. Com minha falta de prática, acabei ganhando alguns hematomas nos pontos de apoio do corpo: Ossos da costela, virilha e coxa. Não completei o circuito, pedi arrego naquele momento e, claro, os instrutores não deixaram de tirar um bom sarro. Coisa normal nestas situações. Alguns dos soldados me disseram que acharam fácil, outros muito difícil e fiquei sem saber quem estava certo. Apenas tive a certeza de que não conseguiria completar, mas isso depois de tentar mesmo.

À noite choveu torrencialmente e acabei ficando junto aos soldados antigos e praças que são responsáveis pela estrutura do Campo. Em conversa descontraída consegui aprender muito sobre a organização do exército e como as coisas são feitas estrategicamente a cada passo.

Quarta-Feira:

Já tá na hora de acordar? É! Seis da manhã o corneteiro está na ativa. E todo acampamento começa ganhar vida. Fomos deslocados para a pista de Orientação Diurna. Claro que depois de toda aquela agitação e exercícios logo cedo. Corre, marcha, pula, sentado um-dois, de pé um-dois, meia volta, esquerda, direita, esquerda e assim por diante. Não comentei antes, mas tem um detalhe interessante em exercícios militares. Aqueles gritos de guerra bradados a toda voz o tempo todo. Quem puxa o grito tem que realmente gritar. Todos os recrutas são designados a puxar a tropa. Essa gritaria contínua faz com que a dificuldade e o cansaço sejam menores, pois em cada frase tinha um incentivo para continuar e vencer os seus desafios. A canção do exército é emocionante, com o refrão: “A paz queremos com fervor, A guerra só nos causa dor. Porém, se a Pátria amada For um dia ultrajada Lutaremos sem temor.”. A energia que emana da tropa ao cantar estas palavras aumenta a moral de todo o grupo e ajuda a seguir em frente.

Chegando à pista de Orientação, fomos divididos em grupos com quatro soldados, com funções específicas dentro da orientação. Homem-Bússola, Homem-Ponto, Homem-Passo e Homem-Carta. Cada um tem um objetivo no grupo, mas tem que trabalhar em conjunto prá conquistar as posições. As técnicas são simples, mas nada é tão simples quanto parece. Nesta manhã já devo ter corrido uns sete quilometros pela área da pista e ainda não acabou. Notei que ficou mais fácil correr depois dos puxados “Joelho no Peito”, “Levanta a cabeça”, “Aceleraaaado”. O exercício fortalece o soldado. Durante o exercício o Gen Stoffel, Comandante da AD/5, parou sua inspeção ao campo prá um bate-papo comigo. Queria saber como eu estava vendo todo o treinamento e só pude dizer que estava em casa. A dificuldade é grande, mas a sensação de vitória a cada etapa supera o cansaço. Finalizamos o exercício e voltei prá base, prá tomar o rumo de casa. Tinha que trabalhar à tarde, prá contar prá vocês como foi essa experiência. Eu queria ficar até o fim, mas quem sabe numa próxima.

Voltei prá cidade e fui direto prá casa tomar um banho de verdade e calçar um tênis confortável. Mas a energia que eu tinha era grande e resolvi ir ao trabalho de bicicleta. Eu já estava com saudades da minha magrela.

Prá finalizar

Não deu tempo de ir à academia nesta quinta, mas fui e voltei do serviço de bicicleta.

Prá concluir esta semana, tenho que dizer que aprendi muito neste Treinamento. Não só as instruções militares, mas principalmente o valor do companheirismo, da ajuda mútua e do incentivo aos parceiros. Os garotos que entram no exército não saem de lá. Quem sai de lá é um homem formado, com princípios de honra, dedicação e humildade legítimos. Considero o Exército Brasileiro como uma escola de formação para a vida. Lembrarei sempre destes dias, das vitórias, derrotas, mas principalmente, dos grandes soldados brasileiros. Parabéns a todos os guerreiros do 15 GAC AP.

Abaixo alguns dos flagrantes do campo.

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