CRÔNICA – Mário Vanin e o dispositivo

Mário não resistiu. Quando o mestre de cerimônias repetiu pela quarta vez a palavra “dispositivo”, ele perguntou: “Bonat, o que é dispositivo?” A crítica, em forma de desafio bem-humorado, educado e inteligente, partia do Prefeito, um homem de letras, que ao meu lado no palanque oficial, assistia a uma formatura no quartel.

Foi o bastante para eu me dar conta de que aquele chavão, que redizíamos várias vezes, era dispensável. Ao invés de “Fulano ocupará o seu lugar no dispositivo”, poderíamos ter dito simplesmente: “Fulano ocupará o seu lugar”. Fácil, não? Mas só depois do alerta do Vanin. Nunca mais permiti que se usasse “dispositivo” nos eventos do quartel nem das unidades que posteriormente eu viria a comandar.

Essa é apenas uma das várias lembranças que guardo de uma pessoa a quem aprendi a admirar. Por isso, lamentei muito ao saber de sua morte quando estive recentemente em Caxias do Sul para proferir palestra para a ADESG.

Lembro do dia em que, mais ou menos às quatro da madrugada, ele me ligou. Ambos havíamos passado a noite em nossos gabinetes, tal a gravidade da situação. Eu contava os prejuízos que um vendaval causara desde a meia-noite. Os telhados de todos os pavilhões do quartel haviam sido destruídos. Do outro lado da linha, Vanin, angustiado com a sua Caxias do Sul, necessitava de apoio. A cidade vivia um caos. Pedi que esperasse um pouco, pois precisava de tempo para organizar-me a fim de conhecer a minha própria desgraça. Claro que eu não iria deixar Caxias na mão. Meia hora depois, retornei: “Prefeito, posso apoiá-lo com cinco equipes de vinte homens”. Mais tarde, soube que uma delas ficara encarregada de liberar a avenida que margeia os pavilhões da Festa da Uva, interditada pela queda de dezenas de árvores. Logo da Festa da Uva, sua paixão como símbolo dos caxienses, a quem Vanin tanto amava!

Ele sempre foi uma presença marcante na Semana Farroupilha. Algumas vezes, quando todo mundo tinha ido embora, permanecíamos até de madrugada com um restrito grupo de amigos. Saboreávamos, então, as histórias que narrava com sua simpatia de ótimo contador de causos. Era o momento em que deixava a formalidade do cargo, para voltar a ser simplesmente o que sempre foi: o Mário, homem do povo, simples e fidalgo. Por isso, e para ajudar a sua gente, sem ser demagogo, muito menos populista, havia se tornado prefeito.

Graças ao seu apoio, consegui erguer o monumento em homenagem aos pracinhas caxienses da Força Expedicionária Brasileira que atualmente embeleza o largo de São Pelegrino.

Não fosse Vanin e a perimetral que construiu, os caxienses viveriam hoje engarrafados num trânsito sufocante. Não fosse ele, e os moradores da Sinimbu e de outros logradouros não suportariam o odor vindo das entupidas galerias subterrâneas de água e esgoto.

Ele deveria ter alardeado isso e muito mais que fez. Mas, ético, preferiu não gastar dinheiro público em propaganda. Esperava que alguém falasse por ele. Ninguém falou. Pois hoje eu proclamo: o meu amigo Mário David Vanin foi um dos maiores prefeitos de Caxias do Sul. E afirmo isso com um olhar crítico de forasteiro, que lá passou somente cinco anos, mas que tem uma percepção muito desconfiada a respeito dos políticos em geral. Entre eles, Vanin foi exceção.

() General da Reserva